Névoa atômica das coisas

  • Postado por Ran

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.



Fernando Pessoa, "Se te queres matar, porque não te queres matar?"

Funk de 1895

  • Postado por Ran

Neste mundo de misérias 
Quem impera 
É quem é mais folgazão 
É quem sabe cortar jaca 
Nos requebros 
De suprema, perfeição, perfeição 

Ai, ai, como é bom dançar, ai! 
Corta-jaca assim, assim, assim 
Mexe com o pé! 
Ai, ai, tem feitiço tem, ai! 
Corta meu benzinho assim, assim! 

Esta dança é buliçosa 
Tão dengosa 
Que todos querem dançar 
Não há ricas baronesas 
Nem marquesas 
Que não saibam requebrar, requebrar 

Este passo tem feitiço 
Tal ouriço 
Faz qualquer homem coió 
Não há velho carrancudo 
Nem sisudo 
Que não caia em trololó, trololó 

Quem me vir assim alegre 
No Flamengo 
Por certo se há de render 
Não resiste com certeza 
Com certeza 
Este jeito de mexer 

Um flamengo tão gostoso 
Tão ruidoso 
Vale bem meia-pataca 
Dizem todos que na ponta 
Está na ponta 
Nossa dança corta-jaca, corta-jaca!


Written by Machado Careca | Music by Chiquinha Gonzaga

Chão de Estrelas

  • Postado por Ran

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

 

Written by Orestes Barbosa and Silvio Caldas

O mal é concreto

  • Postado por Ran

"É óbvio que o mal existe. O que talvez a gente possa pôr em dúvida é se existe o bem."

Pondé

Verdades pixadas

  • Postado por pessoa anônima

"Nenhuma pessoa é ilegal."

"Somos imigrantes, invasor é o capital."

Sem papéis, sem teto ou sem terra, todos somos migrantes na desordem global.”

Avôhai

  • Postado por Ran

Esse sintetizador alóctone conversando com o baixo mergulhado na viagem me pegaram desprevenidos na primeira vez que ouvi. Nunca mais larguei.

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde quarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível
Avôhai!
Oh meu velho e indivisível
Avôhai!
Neblina turva e brilhante
Em meu cérebro coágulos de sol
Amanita matutina
E que transparente cortina
Ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido
Você diz que é meio pior
Mas e pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante
Nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira
Que nunca dormia só
Avôhai!
Avôhai!
Avôhai!
O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve
Na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida
Sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas
Cabelos de avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
E se eu calei foi de tristeza
Você cala por calar
Mas e calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa
Prá doutor não reclamar
Avôhai
Avôhai
Avôhai
Avôhai

Written by Zé Ramalho

Borrowing

  • Postado por Ran

Tropeçavas nos astros desastrada 
Sem saber que a ventura e a desventura 
Dessa estrada que vai do nada ao nada 
São livros e o luar contra a cultura

"Livros", Caetano Veloso, 1997


Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão


"Chão de Estrelas", Oestes Barbosa and Silvio Caldas, 1937

Chão de giz

  • Postado por Ran

Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre
Um chão de giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes

Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom

Agora pego
Um caminhão na lona
Vou a nocaute outra vez
Prá sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy"
That's over, baby!
Freud explica

Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular

No mais estou indo embora!
No mais estou indo embora!
No mais estou indo embora!
No mais!
 

Written by Jose Ramalho

No surprises

  • Postado por Ran

A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal
You look so tired, unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide

With no alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent, silent

This is my final fit
My final bellyache

With no alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises, please

Such a pretty house
And such a pretty garden

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises, please
 

Written by Colin Charles Greenwood / Edward John O'brien / Jonathan Richard Guy Greenwood / Philip James Selway / Thomas Edward Yorke

How are you coping?

  • Postado por Ran

“The question I’ve had for most of my life is, ‘How are you coping?'... Some people have these small, positive schemes for survival, a kind of strength that I am attracted to, maybe because I’m prone to the blues.” Debra Granik