E agora?

  • Postado por Ran

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Excerpt from poem "E agora, José", written by Carlos Drummond de Andrade

The Goldberg Variations

  • Postado por Ran

BWV 988, written for harpsichord by Johann Sebastian Bach

Performed by Glenn Gould in 1955

Névoa atômica das coisas

  • Postado por Ran

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.



Fernando Pessoa, "Se te queres matar, porque não te queres matar?"

Funk de 1895

  • Postado por Ran

Neste mundo de misérias 
Quem impera 
É quem é mais folgazão 
É quem sabe cortar jaca 
Nos requebros 
De suprema, perfeição, perfeição 

Ai, ai, como é bom dançar, ai! 
Corta-jaca assim, assim, assim 
Mexe com o pé! 
Ai, ai, tem feitiço tem, ai! 
Corta meu benzinho assim, assim! 

Esta dança é buliçosa 
Tão dengosa 
Que todos querem dançar 
Não há ricas baronesas 
Nem marquesas 
Que não saibam requebrar, requebrar 

Este passo tem feitiço 
Tal ouriço 
Faz qualquer homem coió 
Não há velho carrancudo 
Nem sisudo 
Que não caia em trololó, trololó 

Quem me vir assim alegre 
No Flamengo 
Por certo se há de render 
Não resiste com certeza 
Com certeza 
Este jeito de mexer 

Um flamengo tão gostoso 
Tão ruidoso 
Vale bem meia-pataca 
Dizem todos que na ponta 
Está na ponta 
Nossa dança corta-jaca, corta-jaca!


Written by Machado Careca | Music by Chiquinha Gonzaga

Chão de Estrelas

  • Postado por Ran

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

 

Written by Orestes Barbosa and Silvio Caldas

O mal é concreto

  • Postado por Ran

"É óbvio que o mal existe. O que talvez a gente possa pôr em dúvida é se existe o bem."

Pondé

Pobre dono de aeroporto não existe

  • Postado por Ran

Este lugar é um pesadelo periférico
Fica no pico numérico de população
De dia a pivetada a caminho da escola
À noite vão dormir enquanto os manos "decola"
Na farinha... hã! Na pedra... hã!
Usando droga de monte, que merda! hã!
Eu sinto pena da família desses cara
Eu sinto pena, ele quer mas ele não para!
Um exemplo muito ruim pros moleque
Pra começar é rapidinho e não tem breque
Herdeiro de mais alguma Dona Maria
"Cuidado, senhora, tome as rédeas da sua cria!"
Porque o chefe da casa, trabalha e nunca está
Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar
O trabalho ocupa todo o seu tempo
Hora extra é necessário pro alimento
Uns reais a mais no salário
Esmola de um patrão, cuzão milionário!
Ser escravo do dinheiro é isso, fulano
360 dias por ano, sem plano
Se a escravidão acabar pra você
Vai viver de quem? Vai viver de quê?
O sistema manipula sem ninguém saber
A lavagem cerebral te fez esquecer
Que andar com as próprias pernas não é difícil
Mais fácil se entregar, se omitir
Nas ruas áridas da selva
Eu já vi lágrimas demais, o bastante pra um filme de guerra

Aqui a visão já não é tão bela
Não existe outro lugar
Periferia (gente pobre)

Aqui a visão já não é tão bela
Não existe outro lugar
Periferia é periferia

Aqui a visão já não é tão bela
Não existe outro lugar
Periferia (gente pobre)

Aqui a visão já não é tão bela.
Não existe outro lugar
Periferia é periferia

Um mano me disse que quando chegou aqui
Tudo era mato e só se lembra de tiro, aí
Outro maluco disse que ainda é embaçado
Quem não morreu, tá preso, sossegado
Quem se casou, quer criar o seu pivete, ou não
Cachimbar e ficar doido igual moleque, então
A covardia dobra a esquina e mora ali
Lei do Cão, Lei da Selva, hã
Hora de subir!
–"Mano, que treta, mano! Mó treta, você viu?
Roubaram o dinheiro daquele tio!"
Que se esforça sol a sol, sem descansar
Nossa Senhora o ilumine, nada vai faltar
É uma pena. Um mês inteiro de trabalho
Jogado tudo dentro de um cachimbo, caralho!
O ódio toma conta de um trabalhador
Escravo urbano
Um simples nordestino
Comprou uma arma pra se auto-defender
Quer encontrar
O vagabundo, q'essa vez não vai ter... boi
–"Qual que foi? (Qual que foi?)"
Não vai ter... boi
–"Qual que foi? (Qual que foi?)"
A revolta deixa o homem de paz imprevisível
E sangue no olho, impiedoso e muito mais
Com sede de vingança e prevenido
Com ferro na cinta, acorda na
Madrugada de quinta
Um pilantra andando no quintal
Tentando, roubando, as roupas do varal
Olha só como é o destino, inevitável!
O fim de vagabundo, é lamentável!
Aquele puto que roubou ele outro dia
Amanheceu cheio de tiro, ele pedia
Dezenove anos jogados fora
É foda!
Essa noite chove muito
Por que Deus chora

Muita pobreza, estoura violência!
Nossa raça está morrendo
Não me diga que está tudo bem!
Muita pobreza, estoura violência!
Nossa raça está morrendo
Não me diga que está tudo bem!

Muita pobreza, estoura violência!
Nossa raça está morrendo
Não me diga que está tudo bem!
Muita pobreza, estoura violência!
Nossa raça está morrendo
Verdade seja dita!

Vi só a alguns anos pra cá, pode acreditar
Já foi bastante pra me preocupar
Com meus filhos, periferia é tudo igual
Todo mundo sente medo de sair de madrugada e tal
Ultimamente, andam os doidos pela rua
Loucos na fissura, te estranham na loucura
Pedir dinheiro é mais fácil que roubar, mano
Roubar é mais fácil que trampar, mano
É complicado
O vício tem dois lados
Depende disso ou daquilo, ou não, tá tudo errado
Eu não vou ficar do lado de ninguém, por quê?
Quem vende a droga pra quem? Hã!
Vem pra cá de avião ou pelo porto, cais
Não conheço pobre dono de aeroporto e mais
Fico triste por saber e ver
Que quem morre no dia a dia é igual a eu e a você

Periferia é periferia
(Que horas são? Não sei responder)
Periferia é periferia
(Milhares de casas amontoadas)
Periferia é periferia
(Vacilou, ficou pequeno. Pode acreditar)
Periferia é periferia (em qualquer lugar)
(Gente pobre)

Periferia é periferia
(Vários botecos abertos, várias escolas vazias)
Periferia é periferia
(E a maioria por aqui se parece comigo)
Periferia é periferia
(Mães chorando, irmãos se matando. Até quando?)
Periferia é periferia
(Em qualquer lugar. Gente pobre)

Periferia é periferia
(Aqui, meu irmão, é cada um por si)
Periferia é periferia
(Molecada sem futuro eu já consigo ver)
Periferia é periferia
(Aliados, drogados, então)
Periferia é periferia (em qualquer lugar)
(Gente pobre)
Periferia é periferia
(Deixe o crack de lado, escute o meu recado)

 

Written by Edy Rock 

Verdades pixadas

  • Postado por pessoa anônima

"Nenhuma pessoa é ilegal."

"Somos imigrantes, invasor é o capital."

Sem papéis, sem teto ou sem terra, todos somos migrantes na desordem global.”

Avôhai

  • Postado por Ran

Esse sintetizador alóctone conversando com o baixo mergulhado na viagem me pegaram desprevenidos na primeira vez que ouvi. Nunca mais larguei.

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde quarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível
Avôhai!
Oh meu velho e indivisível
Avôhai!
Neblina turva e brilhante
Em meu cérebro coágulos de sol
Amanita matutina
E que transparente cortina
Ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido
Você diz que é meio pior
Mas e pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante
Nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira
Que nunca dormia só
Avôhai!
Avôhai!
Avôhai!
O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve
Na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida
Sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas
Cabelos de avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
E se eu calei foi de tristeza
Você cala por calar
Mas e calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa
Prá doutor não reclamar
Avôhai
Avôhai
Avôhai
Avôhai

Written by Zé Ramalho

Borrowing

  • Postado por Ran

Tropeçavas nos astros desastrada 
Sem saber que a ventura e a desventura 
Dessa estrada que vai do nada ao nada 
São livros e o luar contra a cultura

"Livros", Caetano Veloso, 1997


Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão


"Chão de Estrelas", Oestes Barbosa and Silvio Caldas, 1937